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Curitiba/PR, Sábado, 19 de Setembro de 2020

O uso racional da água em tempos de escassez hídrica

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Comemora-se hoje, dia 5 de junho, o dia Mundial do Meio Ambiente. A data, instituída em 1972, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, em Estocolmo, tem como objetivo despertar na população a consciência preservacionista, sobretudo em relação à conservação dos recursos naturais.

Neste ano de 2020 chega-se à referida data com grandes desafios a serem vencidos: junto com a pandemia causada pelo novo coronavírus, enfrenta-se, no Brasil, uma das maiores estiagens dos últimos vinte anos.

Sabe-se que a água é um recurso natural renovável, no entanto, sua distribuição espaço-temporal é irregular. Apesar de o volume total de água não mudar, existem muitas variáveis que interferem em sua disponibilidade. Entre elas, cabe destacar a dinâmica do ciclo hidrológico, o aumento da demanda e a poluição por esgotos sanitários e industriais, que gera a chamada escassez “qualitativa”, relacionada a não possibilidade de uso deste recurso em virtude da alteração de suas características físico-químicas e biológicas.

O que se vivencia atualmente é uma crise de quantidade de água, frente aos baixos índices de precipitação ocorridos nos últimos meses, porém acentuada pelo fato de muitos rios atuarem como receptores diretos de dejetos, provenientes das diversas atividades humanas, os quais na maioria das vezes não recebem o tratamento adequado e/ou não atingem os padrões de lançamento definidos nas legislações pertinentes. Há que se pensar em ações conjuntas a serem estabelecidas para diminuir estes riscos, já que a própria degradação do meio ambiente, como um todo, pode interferir nos regimes pluviométricos locais.

Conforme publicações da Agência de Notícias do Paraná, divulgadas no mês de abril deste ano, nove das maiores cidades paranaenses, de quase todas as regiões do Estado, tiveram precipitação abaixo da média histórica entre junho de 2019 e março de 2020. O Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná – SIMEPAR, divulgou recentemente, em seus boletins de março e abril, que as chuvas ficaram abaixo das médias históricas, atestando precipitação negativa em praticamente todas as cidades do Paraná.

Diante do contexto, ações vêm sendo tomadas pelos governos estaduais na tentativa de evitar um colapso nos sistemas de abastecimento urbano, agrícola e industrial. No estado do Paraná, o governo decretou, no dia 07 de maio, situação de emergência hídrica por 180 dias.

De acordo com relato do Engenheiro Ambiental Bruno Tonel Otsuka, Gerente de Gestão de Bacias Hidrográficas do Instituto Água e Terra (IAT), a publicação do decreto estadual n°. 4.626/2020 é a primeira de uma série de medidas propostas por um Grupo de Trabalho da atual Secretaria do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo – SEDEST, intitulado “Sala de Crise”, que reúne várias entidades, incluindo representantes de comitês de bacias hidrográficas, cujo objetivo é articular e planejar ações estratégicas de curto, médio e longo prazo, voltadas à gestão dos recursos hídricos. Otsuka ressalta que, com a publicação do decreto, foi dado encaminhamento para uma maior fiscalização dos usos da água em pontos críticos (como os mananciais) visando especialmente garantir os usos preponderantes, que seriam o abastecimento público e a dessedentação animal (considerando o que sugere a própria Política Nacional de Recursos Hídricos, Lei n°. 9.433/1997, em situações de escassez).

Otsuka também avalia a importância da reestruturação recente pela qual passou a gestão ambiental do estado, no que se refere a integração de institutos. Frente a uma situação desafiadora que é a crise hídrica, é fundamental que haja agilidade na emissão de outorgas emergenciais  (captação de água superficial e subterrânea e lançamento de esgotos), conexão de dados de monitoramento (hidrológico, meteorológico e fluviométrico) e facilidade de comunicação entre as esferas administrativas. “Desde O início de 2019 a gestão ambiental do estado vem passando por reforma administrativa contundente. Inicialmente teve-se a formação da SEDEST que incorporou a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos e a Secretaria Estadual de Turismo. Ocorreu a vinda do SIMEPAR para a SEDEST, com a missão estratégica de trazer ferramentas computacionais e tecnológicas para previsão meteorológica, hidrológica, monitoramento e auxílio na fiscalização ambiental. Em paralelo ocorreu a reforma dos institutos vinculados à SEDEST. O Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Instituto das Águas e Instituto de Terras, Cartografia e Geologia transformaram-se no Instituto Água e Terra (IAT). Com isso, está sendo possível integrar setores e informações. A outorga de recursos hídricos, por exemplo, agora está integrada ao licenciamento ambiental. Não sai licença prévia ou outro tipo de autorização ambiental sem a avaliação da disponibilidade hídrica (captação, poço ou lançamento de efluentes). Isso é uma novidade no Brasil, o Paraná é pioneiro nesta integração”, complementa o engenheiro ambiental”.

Outro ponto relevante em relação às ações estratégicas para a gestão dos recursos hídricos foi a reativação dos comitês de bacia hidrográfica do estado. “Hoje o Instituto funciona como Agência de Bacia e Secretaria Executiva de todos os comitês de bacia hidrográfica e do Conselho Estadual de Recursos hídricos. São 9 comitês em funcionamento no estado, os quais são órgãos colegiados importantes para a discussão de estratégias e políticas para a gestão de recursos hídricos”, esclarece Otsuka.

Otsuka também comenta sobre alguns dados de vazão dos principais rios paranaenses no mês de abril deste ano. Segundo o engenheiro ambiental “a situação é bastante complicada, com rios próximos ao menor valor de vazão já verificada, desde que iniciado o monitoramento fluviométrico”. Na região de União da Vitória, o Rio Iguaçu, sempre tão imponente, registrou cota de 1,29 metros no mês de abril, o que não era observado desde 1960. “O setor de energia elétrica também vem manifestando preocupação, já que os níveis de armazenamento ao longo do rio Iguaçu (média ponderada) estão abaixo de 15% do armazenamento potencial”, expõe Otsuka. Já em Guarapuava, o Rio das Pedras, principal manancial de abastecimento, registrou cota de 0,32 metros em 28 de abril de 2020 e uma vazão medida de 0,073 m³/s, sendo que sua vazão média é de 8,92 m³/s.  Em um momento como esse, o monitoramento hídrico, pluviométrico e fluviométrico, nos principais rios das bacias paranaenses é fundamental, de modo a agilizar a tomada de decisões prioritárias e a implementação de ações emergenciais.

Indagado sobre a situação do abastecimento público nos municípios de União da Vitória, Guarapuava e Ponta Grossa, o geólogo e chefe da regional da Sanepar de União da Vitória, Bolívar Luiz Menoncin Junior, em entrevista realizada no dia 21 de maio de 2020, explica que as três cidades, felizmente, ainda não estão apresentando problemas. Em um cenário onde a estiagem permaneça por um período de mais um mês, a cidade mais vulnerável, dentre as três citadas, seria Ponta Grossa. Considerando as cidades que compõe cada uma dessas três regionais, Bolívar comenta que, na regional de Guarapuava, os municípios de Laranjeiras do Sul, Pitanga e Pinhão, apesar de atualmente estarem com o abastecimento pleno, correm risco de rodízio se a situação de estiagem perdurar pelos próximos sessenta dias. Na regional de Ponta Grossa, o município de Palmeira já está sob regime de rodízio, sendo que Irati e Prudentópolis também podem vir a adotar tal medida. Já os municípios que compõe a regional de União da Vitória não apresentam expectativa de rodízio. “Em União da Vitória a estratégia adotada foi diminuir o crivo da bomba, para melhorar a captação”, complementa Bolívar.

Com a estiagem, a qualidade da água dos rios também pode ser afetada. O geólogo Bolívar afirma que, com a ausência de chuvas, o carreamento de sólidos em suspensão para os rios é menor, o que diminui a turbidez. Apesar da redução de turbidez ser algo positivo, isso pode induzir a floração de algas, as quais podem ocasionar sabor e odor na água. Entretanto, considerando o período do ano, com temperaturas mais amenas e menor incidência de radiação solar, é pouco provável que este problema atinja os principais rios das três regionais. “Caso algas sejam detectadas, inicia-se imediatamente o uso de carvão ativado no tratamento, removendo o odor e sabor ainda na planta de tratamento”, explica Bolívar.

A crise hídrica também tem impacto no setor industrial e de energia. Mauricy Kawano, mestre em Engenharia Ambiental e Coordenador de Sustentabilidade do sistema FIEP, relata: “Em escala mundial, a indústria tem papel fundamental no uso da água. Indústrias não operam sem dois insumos básicos: água e energia. Contudo, é preciso lembrar que um dos usos múltiplos da água é justamente a produção de energia para o desenvolvimento econômico.  Nesse contexto, é claro que o gerenciamento da água vem se tornando uma questão relevante não só para as indústrias, pois a oferta da água é essencial para a manutenção da vida e das nossas atividades”.

Kawano também reforça a importância do Grupo de Trabalho criado por meio da Portaria IAT n°. 219/2020, o qual vem sugerindo medidas para o uso racional e reuso da água. “Esta proposição de Portaria para criação do Grupo de Trabalho foi elaborada em 2018 pela Fiep e Instituto das Águas do Paraná. A Fiep considera que uso racional deste tão importante recurso que é a água não deve ser somente pauta de momentos de estiagem, mas tem que ser algo presente no dia a dia, pois dentre todos os inúmeros recursos naturais explorados pelo homem, talvez nenhum tenha a importância da água para a manutenção da vida na Terra. Não importa quem somos, o que fazemos, onde vivemos, o que ou o quanto temos. Sem água simplesmente não somos nada, não desenvolvemos nossas atividades, não sobrevivemos”, enfatiza Kawano.

 A precipitação ocorrida no dia 22 de maio de 2020, em todo estado, trouxe um pouco alívio para a população paranaense, frente aos meses de déficit hídrico enfrentados. Porém, isso não significa que as vazões dos rios já normalizaram ou que devamos desperdiçar água. A Política Nacional de Recurso Hídricos estabelece de forma clara que o uso da água deve ser racional e integrado. Por isso, todas as ações governamentais relacionadas à gestão, preservação e disponibilidade deste recurso só serão efetivas se acompanhadas de uso consciente pela sociedade.

A Engenheira Ambiental Cristiane Schappo Wessling, pesquisadora no Lactec, alerta para a necessidade do consumo hídrico consciente: “Pequenas mudanças de comportamento das pessoas, no que diz respeito ao consumo racional da água, precisam ser gradativamente incorporadas no seu dia-a-dia, pois isso contribuirá de forma significativa para que tenhamos água suficiente e com qualidade, seja considerando o atual cenário de crise hídrica, seja em momentos futuros”.

Nessa crise hídrica, já considerada por muitos como uma das maiores ocorridas no estado, que medidas podem ser seguidas pelos cidadãos visando o uso racional da água? Como contribuir para a preservação deste recurso essencial à manutenção da vida? Questionada sobre que atitudes as pessoas podem adotar neste momento, Wessling responde: “A contribuição pode ocorrer de várias formas, desde as mais simples até as mais rebuscadas. Dentre as mais simples, podemos citar as rotinas higiênicas: o fato de se desligar a torneira enquanto se ensaboa no banho já leva a economia de cerca de 80 litros de água! Outra forma refere-se à reutilização da água que seria descartada após a lavagem de roupas na máquina de lavar. Esta água pode ser empregada para limpar uma calçada, por exemplo, evitando desperdiçar água de boa qualidade para fins menos nobres. No que diz respeito às contribuições mais rebuscadas, uma alternativa é implantar na residência um sistema de armazenamento da água da chuva, para irrigação de jardins e limpezas domésticas, por exemplo. Isso diversifica o tipo de fonte, dependendo menos de outras formas de abastecimento de água (companhias de saneamento) e permitindo também maior economia em termos financeiros na conta de água”, explica a engenheira ambiental.

Finalizando, Wessling comenta: “o processo é gradativo para que a sociedade adquira uma cultura mais voltada para a redução do desperdício e consumo consciente. Isso envolve muitos fatores, os quais abrangem tanto os cidadãos como ações governamentais que estimulem estas práticas. Fatos como essa crise hídrica que estamos vivendo reacendem as preocupações e discussões quanto ao uso da água. Entretanto, isso não pode ser esquecido quando (e se) as chuvas retornarem e os níveis dos rios e reservatórios se normalizarem. Promover e incentivar o uso consciente da água deve fazer parte de nossos hábitos hoje e cada vez mais, para que a nossa sobrevivência continue, assim como de todo ecossistema”.

Que no Dia Mundial do Meio Ambiente cada leitor reflita sobre o seu papel na gestão das águas e pratique uma ação que contribua para a sustentabilidade. Finalizando, cita-se uma importante frase atribuída ao professor Carlos Tucci: “A verdadeira crise será sempre gerada pela incapacidade de gerenciar as nossas riquezas dentro de uma visão sustentável”. Pensemos nisso.

 

Esta reportagem foi elaborada pela direção da Associação Centro Sul Paranaense dos Engenheiros Ambientais – ACSPEA. A ACSPEA foi fundada no dia 30/08/2018, em União da Vitória. É formada por Engenheiros Ambientais das regionais de Ponta Grossa e Guarapuava do CREA/PR e suas respectivas inspetorias. Tem como objetivo a valorização do profissional no mercado de trabalho, afim de promover uma maior representatividade em defesa dos interesses dos Engenheiros Ambientais. Todos os Engenheiros Ambientais que atuam na região centro sul do Paraná e acadêmicos do curso de graduação podem se tornar sócios.

Por: Associação Centro Sul Paranaense de Engenharia Ambiental - ACSPEA

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Fonte: A Rede